MUROS Rafael Hayashi

MUROS
Aquilo que o artista cria tem ligação direta com a forma que ele quer se apresentar para o mundo, a maneira que ele quer ser reconhecido como indivíduo. Partindo deste pressuposto eu consigo observar a criação de um personagem dentro da minha produção artística. A imagem de alguém forte, livre de fraquezas, e tristezas. Que luta pelo que quer em busca de um ideal maior. Que se coloca em brigas não se importando quem ou quais são os seus adversários . Que tenta ter fluidez e firmeza na vida e em seus atos .
Este personagem que tento criar não é necessariamente uma fantasia. Ele condensa e potencializa as qualidades que sempre considerei válidas em detrimento de outras. Ele não é fraco, ele não chora, sentimentos e ações pelos quais eu não quero ser reconhe- cido.
Por um bom tempo eu achei que quando eu estava produzindo, pintando ou desenhando estava entrando em contato com meus sentimentos mais profundos, aqueles que eu não sabia que estavam guardados. Porém hoje percebo que não era bem assim. As imagens que eu apresentei na forma de pinturas e desenhos foram muito bem selecionadas e moldadas para ocultar qualidades sombrias. Curiosamente esse lado “sombrio” abriga a fragilidade, as lágrimas,
a delicadeza…
Os trabalhos que criei nos últimos anos reforçaram sempre as características que julgava apropriadas. Porém é curioso observar que o meu lado oculto por vezes transpassa a malha fina das minhas escolhas temáticas. Emergem em meio às pinturas momentos afet- uosos, um abraço amoroso, uma expressão emocionada e também a tristeza. Mas na maioria das vezes eu me escondo atrás destas grandes e fortes figuras que pinto. Como se fossem muros, as pintu- ras fazem uma barreira entre eu e o mundo. São como carrancas e me sinto seguro atrás delas. O mundo é hostil e a arte por vezes re- sponde também com hostilidade. Mas a proteção cobra seu preço e acabo me furtando de vivenciar e expressar toda uma gama de sentimentos e situações.
Não cabe mais dizer hoje em oque define a arte. Mas para mim a arte é um nervo exposto. Um tendão tencionado prestes à estourar. No meu caso essa tensão expressa aquilo que trabalho para mostrar versus o que luto para esconder, que insiste em se apresentar discre- tamente nos trabalhos.
Isso é o que escolho dividir com o mundo. E até o que me define como artista pode ser um muro, que talvez precise ser transposto.

Rafael Hayashi

Maio 2017

Post anterior
Artistas da A7Ma Galeria vão ao encontro da arte com os Ribeirinhos de Belém do Pará
Próximo post
“INCONVENIENTE” Paulo Ito

No results found

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fill out this field
Fill out this field
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

Menu