LOBOT “Todo espaço reserva seu canto”

Luís Alexandre LOBOT
“Todo espaço reserva seu canto”

“Ma” é um conceito japonês que restabelece o acordo entre tempo e espaço. Este cria um movimento gratuito e instantâneo que salvaguarda o espaço das suas finalidades temporais, privilegiando o som, o chei- ro e as cores no agora da paisagem. A arte da pintura em um de seus aspectos anteriores à fotografia, criou atmosferas suspensas que congelaram o tempo. Essa possibilidade suspensória nos sugeri refazermos os acordos humanos e as percepções sobre as sensibilidades que definem o ser, o tempo e o espaço no quadro histórico. Essa suspensão temporal possibilitou à arte ser o agente transformador dos cenários (históricos, míticos-religiosos, políticos e sociais) da vida humana.

Luís Alexandre Lobot vem dessa linhagem de artistas transformadores. Cultivando e transmitindo o “movimento gratuito” através da pintura – onde a vida do artista que se coloca em tempo integral ao fazer artístico aparece -, cada uma de suas exposições individuais (sua primeira ‘Super Nova’ e a segunda ‘Espaço’) vem em busca do vazio. Na sua nova mostra “Todo espaço reserva seu canto” ele parece chegar mais próximo de sua busca. Tocando a “estética do entre” ele cria espaços fora da história, espaços suspensórios que não avançam a história. Trata-se do espaço fora do tempo e do tempo sem narrativa onde a ideia de progresso evolutivo temporal – ou como o conhecemos -, se dilui, restando apenas o estado onde vemos o tempo passar. Para sermos mais precisos, Lobot lida com o tempo que não pode ser contabilizado, com o tempo onde só se pode ter a noção abstrata de si.

Criando portais no entre das relações cotidianas, sugerindo paisagens sem ações explícitas, porém caóticas e cheias de movimento, Lobot nos transfere para o vazio onde a intencionalidade fica a critério do espectador que se depara com esses vãos. Nestes intervalos “vazios” podemos interpretar, criar sentidos diversos, dar ou não dar intencionalidades. Essas clareiras – espécies de “janelas conceituais” -, em filosofia e arte, é o que nos permite aberturas para refletirmos sobre o vazio, o nada e a ausência de tempo no espaço. Lidar com essa possibilidade do nada, pintar o que não está, o vazio onde as coisas podem vir a ser: eis a metafísica da pintura de Lobot.

Em tempos de totalitarismos onde a novidade e o vazio da falta de sentido correm sérios riscos, tal posição se faz essencial. Quando vemos avanços no campo conservador, percebemos que as perseguições em geral se situam entorno do novo, do estranho, do diferente, daquilo que não podemos significar de prontidão e nem ver semelhança simbólica rápida e que sempre surge na figura de um “Outro”. Este outro não pode ser acolhido no ritmo acelerado das relações cotidianas, pois só poderia ser compreendido através de estados contemplativos. Somente com uma certa “desimportância” conseguimos parar e refletir sobre os mundos e as possibilidades sensuais de nossos corpos que transitam entre eles. Nietzsche em seu livro “Schopenhauer Educador” nos sugere a educação contemplativa que visa criar indivíduos reflexivos em resposta às personalidades reativas. Ou seja, só um indivíduo capaz de recuar, parar e analisar todas as pos- sibilidades, frente os estranhamentos que a vida nos sugere, pode ser o dono de seu modo específico de ser e de pensar. Em seu cerne a filosofia, a sociologia e a arte visam gerar estas análises sobre a condição de nos- sos corpos no mundo. Trata-se de gerar consciências e sensos que nos fazem livres para decidirmos nossas ações. Por isso que tais manifestações são uma ameaça à sistemas ultraconservadores que visam o controle social das consciências impondo apenas um ponto de vista.

O estático nas pinturas de Lobot nos propõe paragens onde diante delas podemos também parar com elas. Eis o desafio contemporâneo ao qual ele nos auxilia: estar diante da aceleração caótica dos excessos de informação tecnológica que a vida moderna nos apresenta sem perder a contemplação do vazio natural que aqui já estava antes dos acordos e artifícios humanos.

Bruno Pastore

Escritor, poeta e filósofo.

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