“INCONVENIENTE” Paulo Ito

O mundo da arte contemporânea tem fronteiras bem definidas, os artistas atuantes nas regiões de limite com outras artes acabam servindo para confirmar a existência destas divisões. Mesmo que o artista não acredite que existam separações entre artes, a separação será feita à sua revelia. Existem muitas formas de expressão artística: arte contemporânea, arte moderna, artesanato, arte naif, grafite, arte de rua, teatro, video, dança, fotografia, performance, música, literatura. O que distingue es- sas artes? Muita coisa: os públicos, os profissionais envolvidos, os meios de produção, os locais de exibição, as formas de registro, a catalogação, os objetos criados, os valores envolvidos. É improvável que um ator, por mais famoso que seja, pinte quadros e seja bem aceito por colecionadores investidores, ou que um músico saia dançando e impressione bailarinos profissionais, ou que um curador escolha dezenas de artistas diletantes para uma bienal, ou que um diretor de teatro seja chamado para organizar uma exposição relevante de fotografia A cultura humana tem um nível de especialização muito grande, e isto pode ser positivo, quando percebemos o aprofundamento das pesquisas em suas respectivas áreas e a imensidão de cada um desses territórios.

Entretanto somente a arte contemporânea tem a inquietante capacidade de tomar para si o substantivo “arte” a tal ponto de julgar o que é arte e o que não é. A pretenção de definir a arte foi herdada do modernismo, havia uma cartilha modernista a ser seguida, e quem não seguia era carta fora do baralho. A arte acadêmica, por exemplo, deixou de ser considerada arte e passou a ser confundida com ilustração, vista como mera demonstração técnica, impessoal, artesanal e decorativa. Hoje em dia a arte acadêmica não é sequer tolerada nas faculdades de arte: o pós- modernismo passou a ser o novo acadêmico. O artesanato ainda desperta algum interesse da arte contemporânea por causa do mecanismo da apropriação de objetos fora de contexto, como no caso dos ready mades, e a valorização de estéticas primitivistas. A ilustração não goza da mesma tolerância, ela “não é arte” (ou, não seria arte) porque, segundo a argumentação, é acessório de um livro, o desenho de ilus- tração tem a interpretação da imagem condicionada ao texto, esvaziando assim a autonomia poética.

A credibilidade do grafite dentro do circuito de arte contemporânea só depende do empenho do artista em transmitir segurança e constância ao meio. O que está em jogo aqui não é a inclusão ou a exclusão de formas de expressão, e sim a adoção do jargão da arte, um vocabulário, que o artista pode usar ou não, conforme suas ambições. Se quer se reconhecido em certo meio, deixar contribuições, precisa dialogar com os agentes de consagração específica. É normal que cada segmento puxe a sardinha para si: o cinema é considerado “a soma de todas as artes”, a arquitetura é considerada “a grande arte”, até publicitários são considerados artistas, claro que essas conversas só funcionam dentro de cada um dos nichos.

Paulo Ito é um dos mais proeminentes grafiteiros de São Paulo, seus murais não passam desapercebidos, são abundantes, atingem a cena internacional, têm um traço de desenho bem característico e coerente, e as mensagens tem franco conteúdo político. Funcionam como cartoons que versam sobre temas como a vida urbana, o vazio dentro das pessoas e o capitalismo. Acontece que tradicionalmente a grande maioria dos grafiteiros não fazem obras políticas, nem de humor, por isso ele destoa um pouco da paisagem porque embora exista uma postura fora da lei em grafitar muros, a maioria dos grafites da cidade são peças de design gráfico, sem mensagem clara, sem conteúdo político, são siglas em letras estilizadas, personagens que funcionam como marca, grafismos abstratos e grandes estampas como quem diz “pintei aqui e isso é tudo”. Tradicionalmente a transgressão do grafite está mais no ato de grafitar do que na obra em si, tanto é que seu trabalho contestador é até visto com alguma resistência por alguns colegas. Curiosamente a arte política também é vista com desconfiança dentro do ambiente de arte contemporânea, porque pode ser tachada de panfletária (ou seja, tem uma finalidade outra que não a livre expressão estética) como se a poética ficasse condicionada pela mensagem. Talvez por isso Ito prefira ser categorizado como “artista de rua” e não grafiteiro, aliviando um pouco a pressão sobre a linguagem, posição que parece um certo preciosismo mas que demonstra preocupação com outros vocabulários. Assim sua produção dialoga tanto com a cena grafite que causa até um certo incômodo. Sinal que se impõe com força própria e contribui para alargar a discussão no meio.

Estamos tratando de uma exposição em galeria, então já está bem claro qual o tipo de arte que estamos rodeando. É importante ser relevante neste espaço. O mercado de arte tem linguagem, agenda e instituições próprias. Neste ambiente im- porta despertar o interesse de curadores, críticos, colecionadores, galeristas, produtores e público. O percurso da rua para a galeria não é comum, existem artistas que fizeram com êxito, como Keith Haring, Basquiat, Deco Farkas e Os Gêmeos. Não é uma transição natural e fácil. O mesmo vigor e disciplina da rua precisa ser empenhado no espaço museológico (a galeria também é um ambiente museológico). Só que conversões precisam ser feitas para as questões próprias do espaço. A escala de uma galeria é indoor, enquanto a rua é outdoor. Na galeria busca-se a contemplação demorada das obras, enquanto na rua a visualização dura segundos. Na rua existe o clichê da exuberância, e na galeria o clichê do minimalismo. Paulo Ito está inquieto sobre o percurso da pintura para dentro do cubo branco, já fez exposições anteriores bem distintas, passou por telas que lembravam histórias em quadrinhos, depois expos composições naturalistas longe do universo do grafite. Agora busca o meio termo para uma franca tradução de sua arte da cidade para a sala expositiva. “O artista é o intérprete do leitor” diz Nelson Leirner, revelando uma preocupação com seu público.

Existem artistas que se posicionam conscientemente nas zonas de transição entre artes e assim terão a chance de colaborar para a ampliação dos sistemas. Ja outros vão manter uma obra 100% em conformidade com a estética dominante, poderão ser rapidamente reconhecidos, mas o legado e ruídos para a história da arte talvez não sejam tão significativos. Os artistas, onde quer que atuem, desfrutam de uma relativa liberdade. Terão sempre que dialogar com as expectativas de linguagem do circuito e saber defender o trabalho com argumentos. Nesta carreira existe muita competição, não se pode deixar a peteca cair, a luta contra a decadência é uma batalha constante e ocupar a crista da onda periodicamente é vital. Quem não tem ambição desfruta de liberdade ainda maior. Os artistas mais ambiciosos não querem essa liberdade, querem prosperar, querem compromissos, reconhecimento, jogar as regras do jogo e vencer, muitas vezes dançando conforme a música no começo, e buscando mais arrojo com o passar da idade, após a consagração do nome. As manobras dos artistas no sistema de arte exigem critérios, pertinência, e coragem.

                                                                        Ricardo Ramalho 27/06/2017

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