“Nos Braços do Violeiro” – Yuri Garfunkel

Era uma vez um sertão de muitos e muitos dias de viagem.
Era uma vez um pátio de vila, uma chalana ao longe, um moreno cantando as
mágoas numa casa de sapé.
Muito trabalho e também muito papo pro ar. Muita viola, canoa, chapéu e boi
enfeitados com fitas bonitas de uma porção de cores – cada uma com o seu
significado.
Era uma vez um povo, mistura de vários outros povos, com enorme apreço à
honestidade, à solidariedade e ao valor da palavra dada. E com um jeito único de
falar porta, porteira, muié.
Era uma vez uma cidade que de tanto crescer engoliu a vila… engoliu muitas
vilas. Nisso que poderíamos chamar de conurbação e êxodo rural, mas que aqui
significa que parte daquele povo, caipira e habitante de bairros rurais, se tornou
periférica e habitante das quebradas por exemplo, da grande São Paulo. O bairro
rural virou quebrada. Habitantes das roças distantes migraram pro mais perto
que puderam da cidade grande, no geral, para suas periferias. Onde aqueles
valores (como o peso dado à palavra) muitas vezes se mantém até hoje. Onde
aquele R da porteira ainda se ouve no sotaque que é paulistano sim, mas não é o
mesmo do Boça na MTV.
De forma análoga aos bairros rurais, a própria musicalidade caipira, com origens
indígenas, pretas, paraguaias, entre outras, foi sendo engolida por ritmos
exóticos, texanos, mexicanos… Hoje há quem afirme a existência de dois
caminhos da música de viola frontalmente opostos entre si. E um deles
tensionadamente em movimento de resistência ao outro.
E é por isso que essa exposição sobre o Caipira, sobre essa fala, essa música, essa
cultura miscigenada e popular está aqui na A7MA Galeria, um espaço por
excelência devotado à contracultura do Grafitti. Este, que também nasceu e segue
sendo popular, periférico e de resistência. Essa exposição está aqui para
pensarmos o quanto – a princípio de forma insuspeita – esses universos tão
distintos entre si, têm em comum.
Com as bênçãos de São Gonçalo, continuemos nossa história!
Em 2019 o artista visual e músico Yuri Garfunkel lançou a história em
quadrinhos A Viola Encarnada: moda de viola em quadrinhos, fruto de profunda
pesquisa sobre a música caipira, com o apoio acadêmico do músico, pesquisador
e professor da USP Ivan Vilela. Nela, a história da música caipira de viola é
contada desde a roça até a gravação dos primeiros álbuns e sua difusão na
cidade. Cada página é inspirada em uma moda de viola diferente, que apesar de
chamarmos de forma genérica de “modas”, englobam diversos ritmos como
cururu, cateretê, polca paraguaia, congada e outros tantos. As páginas desta
história apresentam apenas imagens, propositalmente sem textos. Como disse o
Yuri: “é uma HQ muda, ou instrumental, porque não nos apeteceu adaptar os
trechos de letras das canções a balões de texto sobre os desenhos.” Assim, o
silêncio permite ao leitor o tempo espichado da contemplação sonora. Existe
uma playlist no Youtube, acessível também aqui na exposição, com todas as
referências compiladas. Convidamos você a ser um leitor-ouvinte e experienciar
dessa forma a obra em sua plenitude.
Também se encontra aqui exposta a personagem principal que percorre todas as
páginas da HQ, a própria viola corporificada que encarnou, vermelha, pelas mãos
do lutiê Luís Armando.
Aprofundando a contemplação das obras um passo além, é interessante dizer
que a HQ da qual se trata aqui é uma novela gráfica (tradução do termo cunhado
em inglês pelo mestre Will Eisner). E como originais da mesma, cada uma das
obras expostas pode ser apreciada individualmente ou como parte de uma
narrativa maior, composta ao todo por 128 páginas e expostas aqui pela primeira
vez ao público em sua totalidade. Mais ainda, entremos no tema do processo
narrativo em arte sequencial. Na excelente HQ Desvendando os Quadrinhos do
muito recomendável Scott McCloud há uma riquíssima demonstração de
processos mentais interpretativos que ocorrem quando encadeamos imagens
distintas em sequência. Por exemplo, se mostro um quadro com o desenho de um
olho fechado e em seguida um segundo quadro com o desenho de um olho
aberto, a pessoa que estiver observando interpretará que aquele personagem
abriu o olho. Embora cada quadro em si não tenha necessariamente uma relação
direta com o próximo, quando os vemos lado a lado assumimos como público, a
ideia de narrativa, continuidade, movimento e principalmente: passagem de
tempo. A passagem e duração do tempo aqui são conceitos fundamentais para o
bom entendimento e boa apreciação da arte sequencial.
Esse texto que você está lendo, iniciou como a abertura de uma história. Da
mesma forma a primeira obra dessa exposição (Boi Sinoeiro) também é uma
abertura, um começo. É como se nela lêssemos: “era uma vez…”
Como num ritmo musical ela se desdobra em um quadro longo, um curto, um
curto e um longo e apresenta ao público: a situação, dois personagens, um
cenário para a ação. A ação apenas se insinua, há a sua possibilidade, mas ainda
nada ocorreu. Inicia-se assim uma narrativa que está por vir. Diferentemente da
quarta obra (Ranchinho Brasileiro) que apesar de apresentar a mesma dinâmica
em relação às dimensões e distribuição espacial dos quadros, conta através das
ações dos personagens o encerrar de uma história: uma viola é entregue, um
personagem se deita, outro se retira, um personagem senta na rede e toca viola
envolto na paisagem. Pensamento e olhar são convidados ao repouso, à pausa,
juntamente com o personagem da cena.
Há ainda as páginas chamadas de trampolim, onde a ação é cortada no meio do
gesto e somos instigados a passar logo para a próxima página e descobrir o que
sucederá. É o caso da última obra desta parede (São Gonçalo Rio Abaixo). Nela,
todos os quadros são pura ação até atingir o clímax no último, onde os canoeiros
encontram-se em suspensão entre o bote da sucuri e a possível proteção de São
Gonçalo, santo protetor dos violeiros. Fica o convite para virar a página.
E fica o convite aqui para que vocês revirem todas as páginas, abram todas as
pastas aí expostas e desfrutem desta série completa de obras, além dos diversos
estudos e esboços que levaram à construção dessa história. Mergulhem!

João Carlos Villela

 

Serviço

Exposição Nos Braços do Violeiro

Abertura: 21 de outubro de 2021 às 16h a 07 de novembro de 2021

Visitação: Aberto de segunda a sábado das 11h às 19h – domingo das 12h às 17h

Onde: A7MA Galeria – Rua Medeiros de Albuquerque, 250 – Vila Madalena, SP

Contato: contato@a7ma.art.br / a7ma@a7ma.art.br

Telefone: 11 9 95301-1796

Works

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