Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos,
nós precisamos de árvores desesperadamente verdes. Mário Quintana _______

Jiboia, Ripsális, Tilândsia Filodendro, Hera, Maranta.

Pacová, Asplênio, Monstera.

Para os apaixonados por plantas, esses nomes não parecem esquisitos. Pelo contrário, são sinfonia aos ouvidos.

Palavras mágicas que atualmente viraram tendência nos grandes centros urbanos.
Só assim para driblar a poluição, o estresse, a solidão e essa fase que estamos vivendo no Brasil.

Esse é o papel e poder das plantas, nos acalmar, confortar, curar.
Objeto de pesquisa, por muito tempo, de Ju Violeta e temática que costura esta exposição, a primeira individual da artista.

Esse ecossistema está em sua existência. A começar pelo seu nome, de batismo, Jussara Ramos. Jussara vem do tupi ii’sara, palavra designada a uma espécie de palmeira. Ramos, por sua vez, do Domingo de Ramos, onde folhas, também de palmeiras, eram utilizadas. Depois seu pseudônimo, uma cor ou flor, Violeta. Flor que também apareceu como mote de sua primeira pintura em muro.

Além do seu nascimento, é do seu crescimento também a conexão com o verde. Vegana há dez anos, e vegetariana há dezoito, a artista vive em intimidade com o universo da biodiversidade. Seu trabalho mais icônico e que a tornou artista foi “Guardiã”, uma personagem que é revista nesta exibição. Sua casa-ateliê é um reduto de plantas, temperos e relíquias garimpadas pelas ruas de São Paulo. Ela mora na capital, mas afastada dos bairros concentrados, no silêncio, em meio a molduras antigas, vidrinhos infinitos, fotografias de álbuns de desconhecidos, papéis envelhecidos e descobertas inusitadas, como insetos mortos, folhas secas e bonecas vintage. Tem a reutilização dos materiais como premissa básica da sua vivência e criação artística. Não à toa, formou-se em jardinagem e paisagismo. Sua espiritualidade segue os preceitos do xamanismo, recarrega-se na natureza, em viagens para a mata ou praia. Sua linha de raciocínio e vida é baseada nos aprendizados ancestrais e na valorização dos ensinamentos de seus antepassados. Por fim, tem uma rotina consciente, entre cosméticos naturais, alimentação orgânica, aromaterapia e processos handmade, movida pelas causas do meio ambiente e do seu papel como cidadã no mundo.

Nesse paralelo conceitual, entre a essência da artista e o movimento das selvas urbanas, a exposição é concebida – uma espécie de colheita da trajetória de Ju Violeta. Vemos neste espaço, seu desabrochar: o encontro com sua individualidade, identidade e maturidade como mulher, artista e botanista.

Dentro do espectro particular da artista, de transformação contínua, tal qual é o ciclo da vida de uma planta, somos deparados com um verdadeiro inventário botânico afetivo, com obras de diferentes proporções e sentimentos. O convite é para adentrarmos nesse laboratório científico, explorando com nossa curiosidade os garimpos naturalistas e peças retrôs encontradas pela artista, suas anotações e livros, espécies preferidas, assemblages, terrários, pinturas e esculturas.

Não só de plantas é regido este cenário. Borboletas, libélulas e mariposas pontuam uma liberdade projetada em personagens, em totalidade, femininas que hora são duas, sinalizando cumplicidade ou até uma evolução de uma mesma personalidade, cabe ao espectador decidir.

Os elementos não são dispostos sem significância, relógios marcam o tempo, as chaves abertura de portal e gavetas abrem-se para uma nova percepção e consciência de si mesma. No compasso da natureza, as obras estimulam a sentirmos olhando para dentro, a resgatarmos o vínculo com a mãe terra e com a nossa mais pura essência.

Aqui tem-se um respiro. Nos sentimos nas redomas de vidro, dos terrários, em um santuário ou em uma estufa de oxigênio e proteção. As texturas, temperatura, sons e raízes se comunicam conosco. Nos sentimos vivos, no meio deste jardim botânico de arte. Aberto a visitação e reintegração do nosso sistema de equilíbrio. Uma pausa, mais que ornamental, que trabalha o espírito, a alma, o autocuidado, a conexão e a consciência; onde a troca precisa ser mais justa, com nutrientes e amor para ambos os lados, evitando sangrar nosso bem mais sagrado.

“Botânica”, à primeira vista, pode ser mais uma representação da paixão dos entusiastas de plantas e suas vertentes. Mas, é mais que isso, é uma exposição que, de fato, expõe a artista no seu mais recente encontro: consigo mesma, levando a concluirmos que tudo apresentado é de sua

natureza.

Marina Bortoluzzi

Curadora, Art Advisor e Cofundadora do Instagrafite

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