UTAKI– Onde o Sagrado encontra morada

 

* Utaki é um termo de Okinawa para um lugar sagrado, geralmente uma montanha, caverna ou bosque.

 

A Família materna de Catarina Gushiken é originária de Okinawa, um conjunto de ilhas ao sul do Japão que ocupam uma posição estratégica entre a China, Coreia, Indonésia e Taiwan. Graças à essa localização, floresceu tendo como base o comércio entre esses países. Em 1609 é conquistada pelo Japão e passa a prestar tributos ao imperador japonês. Segundo Yoko Nitahara Souza (1) “O termo ―Uchina significa corda no mar em uchinaguchi, sendo utilizado para se referir ao reino entre o povo uchinanchu. O termo –Ryukyu é a denominação para se referir ao próprio reino em conversas com não uchinanchu”. Somente em1879 o arquipélago foi incorporado definitivamente ao Japão. Por isso Okinawa, ainda hoje, se distingue do resto daquele país em várias características como a música, culinária, arquitetura e o modo de vida.

A artista sempre foi muito ligada a seus avós de Okinawa, e de seu avô herdou os diários, fotos e cartas trocadas com as irmãs que lá ficaram. Tudo porém, escrito em uchinaguchi e de difícil tradução no Brasil. Em 2011 ela inicia a busca de sua origem não só do Japão, mas desse arquipélago de 169 ilhas e características muito peculiares. Em um primeiro momento ela se inscreveu em cursos de Sumi-ê (pintura) com a sensei Suely Shiba, de Mokuhanga (xilogravura) com o sensei Fernando Saiki e Shodo (caligrafia artística) com o sensei Nemoto. Ao relatar suas origens de Okinawa, quase sempre ouvia dos professores a mesma frase: “Ah… Okinawa… lá é diferente!”. Obstinada em descobrir no que a terra de seus avós – não o Japão tradicional, mas Okinawa – era tão diferente, Catarina buscou por Anna Lígia Pozzetti, tradutora capaz de transformar os diários e cartas em algo que pudesse ler e assim descobriu as alegrias e tristezas de seu avô, a saudade da casa e as notícias das irmãs que ficaram na pequena cidade natal de Motobu – hoje com três mil habitantes. Foi conversando com a família após alguns contatos, que descobriu duas de suas tias-avós ainda vivas no Japão, quase centenárias. Em 2016 Catarina parte para Okinawa levando os diários de seu avô para presenteá-las, conhecer as origens de sua família e ver por si mesma as semelhanças e diferenças com o tal “Japão tradicional”. Encontrou um país rico, com contrastes grandes entre tecnologia de ponta e tradição. Mas ainda Japão! E lá em Okinawa pôde conhecer o acolhimento de quem nunca a tinha visto, mas a sabia como família.

Fechou-se então um ciclo de quase um século com a neta entregando os diários cheios de alegrias e tristezas –sentimentos, enfim – para a família. Catarina encontrou o seu lugar sagrado – o seu Utaki – no acolhimento de sua família ancestral.

E é neste momento que surge uma pergunta: Como toda essa história resulta em uma exposição de arte? Em um primeiro momento a busca por uma identidade fez com que a artista buscasse pelas mais variadas técnicas tradicionais de arte japonesa e não apenas a pintura e gravura tradicionais, mas as vestimentas, etiqueta e modo de vida. Essa carga cultural aliada ao curso de desenho que fez com Evandro Carlos Jardim, aquarela e pintura à óleo com Rubens Matuck além do estágio junto ao artista Gilberto Salvador, a auxiliaram a formar seu vocabulário visual único, porém alicerçado em técnicas sólidas e consagradas. Catarina não tem a intenção de fazer Sumi-ê, mas suas paisagens remetem à essa técnica em uma outra mídia e suporte. Suas Caligrafias Sensitivas são abstrações e representam a leveza ou o peso do gestual dos ideogramas. Interessantes se tornam as proporções entre os traços, a fluidez das pinceladas, e um estilo próprio que é tão buscado no Sho — uma variação dentro do Shodo (a arte da caligrafia japonesa). Como artista contemporânea ela se apropria sem pudor desses elementos e técnicas com o objetivo claro de expressar seus sentimentos de identidade.

Afim de situar o trabalho de Catarina em um contexto da Arte Nipo-Brasileira sugeri a inclusão de duas referências importantes. A primeira é uma obra (figura A) de Manabu Mabe (1934-1997), que foi um dos pioneiros da abstração lírica no Brasil e ainda hoje uma referência. A segunda obra (figura B), de outro artista igualmente importante para a arte Nipo-Brasileira, é Massao Okinaka (1913-2000), que cursou a escola de Belas Artes de Kansai e teve como mestres Kuroda Jyutaro e Narahara Kenzo, além de ter sido discípulo de Onishi Kakyo no Sumi-ê. Okinaka é quem introduz o ensino do Sumi-ê no Brasil (4), portanto não se pode falar do assunto sem citar seu nome. Mabe e Okinaka residiram na Fazenda Santa América em Lins no interior de São Paulo em épocas diferentes e foram apresentados pelo também artista Tikashi Fukushima nos anos 50. Esses três artistas fizeram parte do grupo Seibi-kai, uma associação que congregava artistas imigrantes japoneses, ativa entre os anos de 1935 e 1972 (5).

A exposição apresentada agora por Catarina Gushiken é composta por 22 pinturas onde a artista se utiliza de uma palheta de cores bastante reduzida; a saber o preto, vermelho, verde, dourado e branco. Cada uma dessas cores possui um significado muito específico para ela. Assim ela as descreveu:

 

“Minha pesquisa em arte orbita investigações sobre identidade, ancestralidade e origem. Quando toco nas questões sobre origem me volto ao vermelho e à formação do corpo no útero materno, mas também ao preto, na diluição e desintegração da carne até chegar ao cosmos. O preto por vezes surge em vórtice, como um infinito abrigando todos os universos. As caligrafias sensitivas que tangenciam corpos e lugares, se revelam em gestos sutis, e trazem em suas abstrações memórias apagadas, esquecidas ou silenciadas. O dourado entra de forma dialética. O ouro ligado ao sagrado, alquímico, mas também ao apego à matéria. O verde aparece como elemento de cura pela natureza, com suas montanhas e árvores em contato com o rubedo em carne e vida.”

 

Na forma encontramos dois diferentes momentos. O primeiro deles é uma abstração focada em pinturas que apresentam movimentos circulares e gestuais, algumas monocromáticas onde a luz é refletida pelas texturas das pinceladas concêntricas. Em outras o círculo e a gestualidade são os protagonistas da tela, levando o olhar a abstrações que remetem ao sexo feminino ou ao Ouroboros – a serpente mítica que morde a própria cauda formando um círculo, uma forma ancestral encontrada na maioria das culturas antigas, da China ao Egito antigo, da Grécia até a Índia, passando por civilizações do Oriente médio. Seu significado possui variações conforme a cultura, mas sempre que há ciclicidade, existe a constatação de que a vida e o universo são feitos de sucessivos encadeamentos maiores que a vontade humana. Os ciclos lunares e o de fertilidade feminina, as estações do ano e a agricultura, a própria vida humana que renasce na geração seguinte.

No Japão o Ouroboros se aproxima do Enso e é importante na prática do Zen Budismo e do Sumi-ê. Simboliza a iluminação absoluta, a força, a elegância e a plenitude do simples (2). Pode ser desenhado aberto ou fechado. Em um segundo momento da exposição encontramos a figuração na forma de paisagem que remete ao Sumi-ê, a arte criada pelos monges Zen-Budistas como prática espiritual que visava trazer a harmonia entre o céu e a terra através de uma pintura monocromática em preto (4). Catarina se apropria desse ideal de harmonia usando cores opostas – o verde e o vermelho – e pintando com tinta a óleo sobre tela. Suas paisagens são a busca de seu Utaki, um lugar tranquilo, místico e sagrado onde sua identidade e sua ancestralidade encontram morada. O Japão o qual seus avós deixaram na memória, o Japão tradicional das aulas de Shodo e Sumi-ê, se modificou. Não é mais o país rural do início do século XX, viveu o trauma da segunda guerra mundial seguido de um salto industrial e tecnológico. São ciclos que passaram, são memórias construídas, contadas e recontadas durante mais de um século de imigração japonesa no Brasil que formam a identidade nipo-brasileira na qual a artista está inserida.

 

Henrique Luz

Jornalista e Curador

 

(1)Yoko Nitahara Souza: A Comunidade Uchinanchu na Era da Globalização–Contrastando Okinawanos eJaponeses–UNB 2009

(2)Tanahashi, Kazuaki (2013).Treasury of the True Dharma Eye. Shambhala.

(3)KOJIMA, S. 2007. ―Remembering the Battle of Okinawa: The Reversion Movement‖. In Uchinaanchu Diaspora: Memories, Continuities and Constructions. Social Process in Hawai’i,University of Hawai‘i Press

(4)LOURENÇO, Maria Cecília França.São Paulo: visão dos nipo-brasileiros. São Paulo: Museu Lasar Segall/IPHAN/Minc, 1998.

(5)Alina e Massao Okinaka. Perenidade e vida. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão/Massao Ohno editores, 1993.

(6)(7)Fischer-Schreiber, I., Ehrhard, R. K. & Diener, M. S. (1991).The Shambhala dictionary of Buddhism and Zen(M. H. Kohn, Trans.). Boston: Shambhala.

 

Serviço

Exposição UTAKI Catarina Gushiken 

Abertura: 11 de novembro de 2021 a partir das 16h

Visitação: Aberto de segunda a sábado das 11h às 19h – domingo das 12h às 17h

Onde: A7MA Galeria – Rua Medeiros de Albuquerque, 250 – Vila Madalena, SP

Contato: contato@a7ma.art.br / a7ma@a7ma.art.br

Telefone: 11 9 95301-1796

Obras

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