ESPACIO Ç Luis Alexandre Lobot

“E S P A Ç O”

Espaço e onda o dizer sempre esteve em risco, mas nunca como agora. porém, nos cabe ainda a tentativa de sair da compulsão que temos pela totalidade e pela sensação de preenchimento. o vazio, como a lembrança do espaço aberto, sem sentido e sem contorno, é um estado habitável. palavras podem ser decantadas e desfeitas até o vazio anterior aos acordos voltar a ser sensível.

Na compassividade – perseverança em ausentar-se de si -, o anterior ao humano que somos reaparece. quando a linha da cognição é extravasada, o aórgico antes dos organismos pode ser tocado. borrões, cores, tons e vibrações ganham o espaço mantendo-se onda, sem excluir a sua parcela de nada. caminhamos no não sabido e só a errância nos ampara, se há a possibilidade do ritmo, o ser só existe se olhamos para ele. o que nos abarca é abstrato e oscila frente a tentativa de decodificar. sua intensa insuficiência ondula sugerindo alternâncias constantes. a pintura volta a ser um drible na pequena área do espirito e, somente estando des-ocupado —esperança enquanto só espera mesmo—, torna-se possível suportar a sua gravidade. este para-nada assanha a pintura e somente com acuidade pode-se atender ao chamado. no teatro japonês sempre há uma cadeira vazia na plateia, destinada as almas dos antepassados: trata-se da madeira secular dos fatos. se tratando de vida, convivemos com a atávica invisibilidade multidimensional da morte.

Caminhar fora do acabamento e suportar esta infinição instaura uma conversa sempre aberta – quando o nada fica ex-posto, a noção de substancia entra em movimento e se desfaz -, pondo a realidade em suspeita, mantendo-a em sua movença inicial. nisso, o excesso de materia, através de uma ausência de sentido, pode ser confundido com a vacância de um espaço vazio. Ranhuras, camadas e faturas corporificam devaneios, aquilo que é animal, que rasgando a sublimação da fala cotidiana nos faz contemporâneos de onde a alma angaria espaço.

O fluxo de informações mundanas, aos quais ja nos cansamos o bastante, após passar por uma espécie de retorta alquímica, é reagrupado e justaposto afim de atender ao seu destino mais intimo que é estar em movimento. palavras aleatórias, brincadeiras randômicas, os filósofos juntos também falam bobagem e riem alto uns com os outros, numa comunhão, pois parar de pensar é crucial para a saúde cósmica. a inoperância da ausência de pensamentos nos lança ao sumo da existência. é que as vezes não se trata de mudar o caminho, acelerar ou parar, mas sim de um gesto completamente novo, uma dança.

Num mundo cercado de receitas medicas, todos os micróbios merecem a gratidão. a limpeza nos é psiquicamente pobre, o excesso agrega mais valores interiores. impressões digitais, genéticas ruidosas, tudo que é abjeto, reivindica o espaço visível. este é um pacto ético com todas as reminiscências que, silenciosamente, não tinham visualidade estática.

A voz de todos os povos ja extintos, reunidos numa matemática intuitiva do junto, parecem redimir a comunicação dos atos falhos que sujeitam a fala vigente. repuxando tudo ao estado de antecedência de ser, esta teia que também se faz de espaços vazados, é tecida como uma colcha de retalhos. nisso a rigidez do espaço unitário ganha a moleza dos multiversos.

Quando a vida é feita um observatório, pouco importa se pensamos ou não, se sentimos ou não. e da materia à onda vamos em apenas um passo. espaço, lugar , estado, bidimensional e tridimensional, passam a importar pouco quando o que olhamos é abismal.

Bruno Pastore

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