O mundo da arte pode parecer cruel

Fotografia
Diego Aliados

por Aline Anzzelotti

O mundo da arte pode parecer cruel as vezes, mas o que o artista pode ser então? Será que esperar que as coisas mudem pode na verdade destruir o fundamento principal da arte que é realizar a expressão do artista?

Todo mundo sabe as dificuldades que um artista enfrenta para se comercializar e atingir um patamar sólido em sua carreira especialmente aqui no Brasil. Ainda, sabemos que a maioria dos artistas que vem do grafite e da streetart não navegam em mares calmos para poder seguir em frente com sua arte.

Tem artista que já deixou de comer para comprar material. Outros moram de favor ou vivem com uma ajuda de custo de alguém que acredita na arte deles, mas, não tem tanto para contribuir. Artista que envia portfólio sem parar e não recebe nem um não como retorno. É assim mesmo, todos tentando sobreviver.

Dias de luta, dias de glória

Essas histórias todas foram vividas na pele de nossos artistas e curadores também. Muita dificuldade foi superada. Tênis furado de tanto andar e entregar portfólio, morando em casas com 8, 10 pessoas para baratear o custo de vida. Galera sem costa quente, sem “paitrocíneo” mas com muita determinação e fé.

Porque imagina, se o artista for esperar que todas as galerias o queiram, o chamem, o façam pertencer, ele vai cansar. É um mundo que pode mesmo ser cruel, mas principalmente para quem não corre atrás do que quer. Não é que é só fazer que vai ser sucesso, sabemos disso. Mas sabemos que o fazer é fundamental, até para fracassar, é preciso fazer alguma coisa.

O mundo das galerias realmente estabelecidas e comerciais, é mais restrito sim, não podemos negar. Mas isso não pode definir a carreira e vida de um artista. Porque é nesse momento que ele desiste, e outro artista que não aceita desistir, vai lá e vence. Arte é criação constante, movimento, conexão. A arte não começa na tela e não termina na exposição.

Pode-se dizer que para ser artista é necessário um encontro de preparo com oportunidade. Mas o preparo precisa acontecer. Senão a oportunidade escapa. Todo fera do grafite conhece Jean-MIchel Basquiat. Artista negro, incrível que conseguia desenhar com ketchup em guardanapo ou no prato mesmo.

Basquiat morava numa caixa de papelão na rua. Era totalmente desestruturado, sem contatos no mundo da arte, sem renda, sem lenço nem documento. Mas, uma coisa ele tinha, era talento. E ele podia criar a qualquer hora com qualquer coisa. Ele só queria criar, essa era a motivação dele, a arte e a criação. Não o aval de curadores ou da massa.

Sucesso não é popularidade

E mesmo ele não se importando com esses resultados, quando Andy Warhol o conheceu, não acreditou no que via. Andy Warhol, que era o pai da Arte Pop, o artista mais “cool” daqueles tempos, se admirou pela arte do cara que morava na caixa de papelão e usava o amarelo da mostarda como ninguém.

Essa dupla rendeu, fez inúmeros projetos juntos e são referências de muito respeito cada um dentro da sua proposta mas com muito em comum. Esse comum, é o ser artista, é a arte. E o sucesso nessa carreira, pode chegar como pode não chegar, como em qualquer profissão.

Vincent Van Gogh hoje é o pai da noite mais famosa de todos os tempos, a Noite Estrelada. Entretanto, teve uma vida muito difícil devido sua doença mental e situação econômica, já que para pintar, ele vivia com um pouco de dinheiro que o irmão dele enviava para ajudá-lo todo mês.

Ele, vendeu um único quadro em vida, e não foi o auto retrato que ele fez após ter cortado a própria orelha fora. Ninguém, além de seu irmão reconheceu o artista ou fez qualquer coisa por ele, mas ele pintou até o último dia de vida. E talvez por isso, que hoje ele é um artista gigante, porque a arte dele era gigante apesar de todos os obstáculos que ele tinha a sua frente.

A crueldade em todas as épocas

Atualmente, um exemplo mais real, é nosso artista Diego Aliados. Ele que é do Grajaú, não nasceu em berço de ouro e talvez nem berço tenha realmente tido. Se apaixonou por uma arte que envolve investimento, a fotografia. Uma câmera decente envolve 4 dígitos pelo menos.

Contra todas as estatísticas, ele foi trilhando o caminho dele, foi conhecendo pessoas, se esforçando, fazendo o que podia com o que tinha onde estava. Porque mais que ter recursos, é ser engenhoso, é encontrar alternativas diferentes para solucionar os problemas que aparecem em nossos caminhos. E hoje ele é mais que um fotógrafo, ele é uma personalidade também.

Engenhosidade é uma característica muito artistica inclusive, que liga coisas que a visão normal não consegue ligar. É como se nossa vida seja na verdade nossa arte, nosso carisma, nossas atitudes, nosso poder de resiliência, é o que determina se chegaremos ao nosso destino ou não.

Portanto, existe uma escolha para qualquer artista, desde o início de sua trajetória que pode ser colocada como “Vencer ou Vencer”. Mas, isso não quer dizer ter sucesso, quer dizer viver aquilo que se acredita. Porque quem vive o que acredita, se sente vencedor e bem sucedido, mesmo não tendo popularidade.

As rendeiras da ilha

Em Florianópolis, existe a tradição das mulheres rendeiras. São mulheres que fazem a renda de bilro, atividade trazida pelos açorianos, enquanto os maridos estão fora na época de pesca. Essa arte é tão importe para a ilha, que se tornou patrimônio cultural da cidade, mas em se tratando de “negócios” nunca será um negócio que atingirá números ou popularidade grande.

Mas essas mulheres, nunca deixarão de fazer suas rendas, porque é no que elas acreditam, é a arte de suas vidas, da espera de seus amores, da união dessas mulheres. Isso significa muito mais que ter uma peça na vitrine da Dolce&Gabbana para elas.

Apesar dos caminhos restritos da arte, apesar do “mundo da curadoria”, apesar de todos os pesares. O artista legítimo e original vive acima desses fatores, sua obra é maior que todos eles juntos. É preciso muito mais que tinta para fazer arte.

Resiliência na própria arte

Na A7MA tem muita história, de lutas e de glórias. Uma galeria que começou com artistas que cansaram das regras dos outros e criaram suas próprias regras. Isso envolve atitude, tempo, fé, sacrifícios, investimentos, humildade. Porque por mais que a gente saiba e entenda o quanto tudo é difícil, a gente nunca se dará por satisfeito ou vencido.

Uma ideia para novos artistas que estão começando em um mercado tão cheio de opções é que busquem suas identidades, suas vozes, seu caminho e trilhem. O mundo da arte pode parecer cruel sim, mas caminhem, porque o caminho só existe quando a gente anda nele. Nunca se vejam como vítimas de nada, mas como agentes da obra de arte da vida de vocês e do que vocês acreditam.

A A7MA apoia todos os artistas, de todos os estilos, níveis, cores, tipos e sexos. E deseja realização a todos.

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