Exposição Importa

por Aline Anzzelotti

Parece que são tempos muito sombrios os quais estamos vivendo. Mas, se formos parar para realmente perceber o que acontece, é possível enxergar muita luz nesse túnel. Em outras palavras, “é do caos que nascem as estrelas”, conforme disse o amigo Friedrich Nietzsche.

A cena que retrata a humanidade no ano de 2020, é sem dúvida uma das piores que as últimas gerações enfrentaram. Anteriormente, vivemos guerras, outras epidemias, pragas, revoluções políticas criminosas e escravidão. Nesse meio tempo, os humanos foram deixando marcas no caminho da história, relatando da forma que podiam e evoluindo nas técnicas para que cada vez mais as mensagens fossem compreendidas.

Essa mesma humanidade, tão interessada em deixar suas pegadas na história, evoluiu exponencialmente para tantas questões humanas. Mas se perdeu em questões sociais básicas que hoje trazem resultados lastimáveis para nós. Por outro lado, devido a tantas outras evoluções, hoje tudo reverbera muito mais e talvez seja o momento mais importante para que o que não serve para nós acabe.

Não precisamos ir muito longe, para entender como as coisas estão funcionando. Antes que os anos 2000 chegassem. Não se conversava sobre questões como racismo, feminismo, homossexualismo, e praticamente nenhum “ismo” em família. Uma criança nunca escutava os pais falando sobre nenhum desses assuntos, a menos que alguém dentro da família fosse pauta para algum deles.

Elefante no meio da sala

Todos cresciam sabendo que certas coisas aconteciam, mas que de alguma forma, não era permitido falar em voz alta sobre elas. Mesmo com tantas revoluções que já haviam acontecido no mundo, falar daquelas questões no dia a dia, era como ter o tal “elefante no meio da sala.” Ou seja, não era possível receber educação livremente, assuntos importantes para todos, eram colocados em um nicho secreto e ficavam lá sem respostas.

Então a internet deixou de ser discada, e as redes sociais surgiram, e as pessoas foram aparecendo como nunca. E aparecendo sua cor, suas opções, suas opiniões e suas raivas também. Quanto mais as pessoas vivem em um sistema de “rede social”, mais o quadro social se propaga pelo mundo.

Há quem recrimine e seja oposto a “tanta exposição”, que sabe que a vida é muito mais, é viva, tem movimento e respira no mundo real. E isso é uma verdade sábia de se ter. Porém, outra verdade boa de saber, é que essa exposição vem libertando as pessoas das prisões que a falta de educação causou. Da escravidão psicológica que foi feita por centenas e centenas de anos.

Escravidão Psicológica

Nossa boa amiga arte, está ai para nos contar toda essa história. Musicas, quadros, filmes e livros, retratam as fases do ser humano e deixam registros para nunca serem esquecidos. Por exemplo, Guernica de Pablo Picasso, que é considerada uma das pinturas mais importantes e simbólicas do movimento cubista.

Guernica
Pablo Picasso

Para quem não sabe, esta obra é uma representação do bombardeio que a cidade espanhola de Guernica sofreu em 26 de abril de 1937, durante a Segunda Guerra Mundial. Assim, este quadro possui um significado político e apresenta uma crítica ao caos e destruição provocado pelo Nazismo. Em um único quadro, podemos ver como o mundo estava, a dor, a repressão, a confusão e injustiça, todos assuntos estampados, “expostos” para quem quisesse ver. Logo, viam, mas não falavam.

Cálice e Cale-se

“Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa”
– Chico Buarque e Gilberto Gil

Essa música, foi composta em 1973, mas foi proibida pela censura do regime militar no Brasil e só pode ser gravada depois, em 1978. Fazendo uma analogia entre o sofrimento enfrentado pelos brasileiros no período e a Paixão de Cristo, o mesmo cálice que, segundo a tradição cristã, servia o sangue de Cristo, também servia o sangue de pessoas torturadas e mortas durante a Ditadura Militar no Brasil.

Então, quanta coisa é possível aprender com esses registros que o ser humano vai deixando ao longo dos anos. Parecem pistas, que mostram os dois lados da vida duelando entre si. E muita educação social pode ser tirada de tudo isso. Exposição e propagação não devem ser colocadas contra nós. Ou seja, precisamos tirar o melhor do que temos, para sermos melhores do que somos.

Nos últimos meses, a exposição tem nos mostrado que racismo e escravidão do psicológico ainda existe, homofobia ainda existe, ditaduras disfarçadas ainda existem, boicote a ciência ainda existe, feminicídio ainda existe, bullying ainda existe. E incomoda tanto ver, machuca, envergonha, indigna e mancha toda a história da humanidade de sangue, por ter só observado e não ter falado sobre tudo que precisa ser dito, por ter deixado de trazer informação e educação para tantas gerações.

“Guerrilheira Botânica”
Jú Violeta
Um flash no fim do túnel

Tentou humilhar alguém, alguém filma. Bateu na mulher, o vizinho posta. Abusou do poder, alguém tira foto. A oportunidade de sermos nós mesmos a patrulha desse mundo. A possibilidade de não só não ser, mas de também denunciar tudo aquilo que não cabe mais que a humanidade seja. Essa é a hora. Assim, para quem tiver coragem de libertar as pessoas, porque precisa de coragem para denunciar o mal.

Já não cabe mais levantar bandeiras, o que cabe agora é ser inadmissível que o mal aconteça em torno de nós. E esse é o rumo que parece estar tomando nossa história. Infelizmente de maneira triste e com muitos sacrificados. Mas que estão sendo a boa causa para a cura dessa nossa doença de julgar e condenar os outros.

A questão LGBT, ao racismo, ao machismo, ao fascismo e a todo tipo de abuso e invasão ao outro, não é questão de tomar partido. A questão é deixar as pessoas em paz. Enquanto as vidas negras não importarem, nenhuma outra vida importa. Enquanto uma mulher apanhar, nenhuma mulher está segura, e enquanto um homossexual sofrer qualquer descriminação, ninguém mais pode viver em paz. Concluindo, ver e não falar, é cumplicidade. Não deixe que o mal viva em torno de você. Exposição.

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