por Aline Anzzelotti

Quem olha o que a A7ma Galeria se tornou, nem imagina de onde vem tanta liberdade, expressa em inúmeras exposições . São Paulo que era uma cidade hostil, hoje é palco aberto para o que é local, para o patriotismo da arte de todo dia, da arte da rua que traz em si a magia do ser comum. A7MA, representa a democracia e liberdade que todos nós silenciosamente buscamos em um mundo tão incerto nos valores mas completamente certo da ganância do poder.

Em 21 de Abril de 2012, as portas de um espaço de arte e respeito se abriam na quinta maior cidade do mundo. Apesar disso, nenhuma ideia é concebida no dia de seu nascimento, e muito antes essa semente já estava sendo fecundada na mente de pessoas comuns, que representavam mundos através de sua arte,

A mistura de diferentes perspectivas, trouxe a força e o impulso que os “grafiteiros”, como eram denominados, da cena paulistana precisavam para expressar em muros, portas, prédios e em que superfícies fossem passiveis de tinta aparecessem pela frente. Seja como for, a arte crescia mas esbarrava sempre na falta de espaço para tantos talentos que surgiam a cada dia nessa grande metrópole.

TUDO COMEÇA NA AMIZADE

Tudo começou com amizade, a junção de três mentes, cada uma completamente diferente da outra, mas com ideais em comum. Essa junção se inicia em uma rua do bairro do Paraíso, no número 132. Ali, Tché Ruggi, Enivo, Jerry Batista (que contribuiu muito com o projeto e seguiu outros caminhos) e Marina Zumi (que hoje mora em Berlim) viviam e abriam suas portas para quem quisesse chegar e somar. Os primeiros Saraus, as artes nas paredes que mudavam a todo tempo, os discos tocados na “vitrola”. Surgia o rascunho do que seria A7MA. Porém, o “progresso” chega para todos, e não foi diferente com o 132.

Com a venda do imóvel para que um grande complexo de prédios fosse construído, o Coletivo 132 seria demolido, mas nunca sua alma. Com isso, um sentimento de _iN-Cômodo surgiu e foi manifestado em uma ação de vários artistas, que foram em todas as casas já semi destruídas daquele quarteirão e fizeram uma ocupação artista em cada cômodo que ainda estava em pé. Porque a arte é isso, é sentimento vivo, e sangrou em tinta.

DESTRUIR PARA CONSTRUIR

Dessa demolição, novas construções foram erguidas e a ligação do trio com os irmãos Alexandre Enokawa e Cristiano Kana foi uma delas. Kana, que é um dos, senão o maior gênio em gravuras da cidade, vinha de uma historia chamada FullHouse, empresa de serigrafia muito conhecida no mundo do skate e graffiti da época. Com o fim daquela etapa da FullHouse, eles buscavam um novo espaço cultural. Imediatamente, começava a busca por esse espaço onde a ideia dos cinco artistas pudesse estar viva novamente.

A vila Madalena era o bairro escolhido, já que o Beco do Batman era um centro cultural vivo e parte da vida desses artistas. Kana conta que quando o imóvel onde hoje é a A7MA foi descoberto por eles, outras três propostas estavam na frente, mas o proprietário ficou curioso em ver cinco rapazes querendo alugar e perguntou o que queriam fazer. Logo, quando eles contaram a ideia, imediatamente o proprietário fechou negócio com eles, pois acreditou na ideia e era simpatizante de ter em seu local um foco artístico e inovador.

NEM TUDO SÃO FLORES

Assim, surgiu Atma, que não pôde ter esse nome pois já faziam uso no mercado. Mas alguns pensamentos, e um T que virou um 7 e A7MA nasceu como uma nova alma cultural na cidade de São Paulo. De acordo com os fundadores, no início bem como sabemos, nada é só flores e pinturas e houve muito trabalho para fazer a ideia crescer, as primeiras reformas foram feitas por eles mesmos, se virando como podiam, sempre contando com a ajuda de muita gente que apoiava a ideia e de certa forma, era parte de uma família artística, cansada de bater na porta de galerias que marginalizam a cultura do graffiti e não davam espaço para eles crescerem.

Logo, as portas para a liberdade de expressão estavam abertas, e esse novo movimento cultural mudou a história da arte de rua para sempre. O graffiti, que é a raiz de muitos mas não todos os artistas parceiros da galeria, tem um histórico ilegal e reprimido, sem reconhecimento do grande mercado de artes. Mas isso mudou e essa vertente cresce organicamente e dá oportunidade para gerações de novos artistas se sentirem acolhidos e seguros para poder criar.

A ARTE VENCEU

Para somar o time da galeria, Raymond Supino é mais um sócio importantíssimo que entrou para a família a mais de um ano, contribuindo com a expansão da marca. Hoje a galeria conta com obras de mais de trinta artistas variados, porque a ideia não é se fechar a uma única perspectiva como era a cena anterior, mas projetar o todo que a arte pode manifestar. Além dos fundadores que tem suas obras disponíveis, a família conta com outros artistas incríveis como Lobot, Jú Violeta, Rafael Hayashi, Paulo Ito, Bieto, Diego Aliados, Felipe Ikehara, Kueio, Erica Mizutani e Solly.

Como espaço cultural, todo mês, a galeria vira palco para o Sarau do Burro da A7MA, que traz a manifestação artística livre envolvendo poesia, música, live painting e o que mais os convidados quiserem trazer para ilustrar o movimento. Dessa forma, novas conexões são feitas e o objetivo de expandir vem se realizando e contagiando não só a cidade de São Paulo, como o Brasil e o mundo.

A7MA REFERENCIA SUL-AMERICANA

A galeria se consolidou e conquistou reconhecimento internacional, sendo considerada referência na América do Sul. Essa é uma ideia original e inovadora, que desbanca o conceito de arte elitizada. A arte é conceito popular, está em todos os lugares e principalmente nas ruas e toda arte precisa ter o seu valor muito bem colocado. A cultura de colecionadores também cresceu com isso e hoje colecionar arte não está mais em um pedestal só para grandes investidores.

E esse sem dúvida é o maior objetivo. O mercado artístico separou por muito tempo a boa arte do povo, encobrindo o fato de que quem faz essa boa arte, é o próprio povo, vivendo e absorvendo sua realidade. Afinal, arte é expressão e ninguém se expressa para ser enquadrado em um único nicho, a expressão é livre, é de todos e para todos. Quem tem bons olhos, que veja.

O FUTURO É CERTO

Em tempos de quarentena, o QG cultural está de portas fechadas, mas nunca para. No espaço físico uma grande obra foi realizada para expandir o ambiente e as possibilidades de eventos no local. No digital, a marca está mais forte do que nunca e em breve será lançado um tour virtual pela galeria. Definitivamente, ninguém pode deter esse movimento e A7MA está viva em todos os lugares. E logo estará de portas abertas para celebrar a arte novamente.

Algumas das obras dos artistas incríveis que a A7MA tem o privilégio de ter como família

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